Influenciadores divulgam informações 'esmagadoramente' enganosas sobre exames médicos nas redes, mostra estudo
Cientistas analisaram cerca de mil posts sobre cinco testes de triagem controversos que foram promovidos para quase 200 milhões de pessoas
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RESUMO
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GERADO EM: 27/02/2025 - 10:50
Influenciadores promovem exames médicos controversos: estudo alerta.
Influenciadores promovem informações enganosas sobre exames médicos controversos em redes sociais, alerta estudo global. Postagens carecem de embasamento científico, ignoram potenciais danos e visam interesses financeiros. Especialistas advertem sobre sobrediagnóstico e tratamentos desnecessários, destacando a necessidade de regulamentação e conscientização.
Estudo global liderado pela Universidade de Sydney e publicado no JAMA Network Open mostra que ingluenciadores digitais estão promovendo informações "extremamente" enganosas sobre exames médicos no Instagram e no TikTok. Os cientistas analisaram cerca de mil postagens sobre cinco testes de triagem médica controversos que foram promovidos por influenciadores de mídia social para quase 200 milhões de seguidores.
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Os testes incluíram exames de ressonância magnética de corpo inteiro; testes genéticos alegando identificar sinais precoces de 50 tipos de câncer; exames de sangue para níveis de testosterona; o teste do hormônio antimulleriano (AMH) — que avalia a contagem de óvulos de uma mulher — e o teste do microbioma intestinal.
A maioria das postagens não tinha referência a evidências científicas, eram feitas por interesses financeiros, promocionais e não mencionavam danos potenciais dos testes. Segundo os especialistas, esses testes têm evidências limitadas de benefício em pessoas saudáveis, podendo levar ao sobrediagnóstico e ao uso excessivo.
"A grande maioria dessas postagens era extremamente enganosa. Eles estão sendo promovidos sob o disfarce de triagem precoce, como uma forma de assumir o controle da sua própria saúde. O problema é que eles são desnecessários para a maioria das pessoas e, em alguns casos, a ciência que respalda sua eficácia é instável", afirmou Brooke Nickel, que liderou a pesquisa na Escola de Saúde Pública da Faculdade de Medicina e Saúde.
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A análise dos pesquisadores descobriu que mais de 8 em cada 10 posts não mencionavam desvantagem ou risco dos testes.
"Esses testes carregam o potencial de pessoas saudáveis receberem diagnósticos desnecessários, o que pode levar a tratamentos médicos desnecessários ou impactar a saúde mental ", disse Nickel.
Segundo a médica, um exemplo é o teste de AMH que está sendo comercializado por influenciadores para mulheres como uma forma de medir a fertilidade, entretanto, os especialistas não o consideram confiável.
“Há a preocupação de que um resultado baixo descoberto fora do contexto de um problema médico específico pode levar algumas mulheres a intervenções de fertilidade desnecessárias e caras", disse ela.
Outro exemplo é o teste da testosterona, frequentemente comercializado para homens que alegam aumentar a masculinidade e o desempenho sexual. Segundo Nickel, isso é “arriscado” porque “a segurança a longo prazo da terapia de reposição de testosterona na saúde cardiovascular e mortalidade ainda é desconhecida”.
Entre as 982 postagens no Instagram e TikTok analisados pelos pesquisadores:
- 87% mencionaram os benefícios dos testes, mas apenas 15% mencionaram potenciais danos;
- Apenas 6% mencionaram o risco de sobrediagnóstico ou sobretratamento;
- Apenas 6% mencionaram evidências científicas, enquanto 34% usaram anedotas pessoais para promover o teste;
- 68% dos influenciadores e outros titulares de contas tinham interesses financeiros em promover o teste (por exemplo, parceria, colaboração, patrocínio ou venda para lucro próprio de alguma forma).
"Esta é uma crise de saúde pública que agrava o sobrediagnóstico e ameaça a sustentabilidade dos sistemas de saúde”, afirma o copesquisador Ray Moynihan, professor assistente honorário da Bond University.
O grupo de pesquisa está atualmente investigando maneiras de regular melhor esse tipo de informação médica enganosa nas mídias sociais.
"Considerando que plataformas de mídia social como o Instagram estão se afastando da verificação de fatos de seu conteúdo, a necessidade de uma regulamentação mais forte para evitar informações médicas enganosas ganhou urgência", pontua Josh Zadro, pesquisador sênior e coautor da Universidade de Sydney.
Por que eles são controversos?
- Ressonância magnética de corpo inteiro: afirma-se que testa até 500 condições, mas não há evidências de benefícios para pessoas saudáveis, enquanto existem perigos reais de diagnósticos desnecessários e tratamento excessivo.
- Testes de detecção precoce de múltiplos cânceres: alegam rastrear mais de 50 tipos de câncer, mas os ensaios clínicos ainda estão em andamento. Até o momento, não há evidências de que os benefícios da triagem de populações saudáveis superem os danos de diagnósticos desnecessários de câncer.
- Teste AMH ou "egg-timer": embora benéfico para certas mulheres, esse teste é falsamente promovido para mulheres saudáveis como um teste de fertilidade, com preocupações de que os resultados possam levar a tratamentos de fertilidade desnecessários e caros.
- Teste do microbioma intestinal: o teste promete "bem-estar" por meio da detecção precoce de muitas condições — de flatulência a depressão — sem boas evidências de benefício, além de preocupações de que os resultados do teste possam levar ao uso médico excessivo, causando danos e desperdício.
- Teste de testosterona: Não há evidências de benefícios nos testes em homens saudáveis, mas o perigo do uso excessivo de tratamentos; a segurança a longo prazo da terapia com testosterona, em relação a eventos cardiovasculares adversos e morte precoce, ainda não foi estabelecida.
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